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Anos atrás, li na revista "The New Yorker" um dos melhoresensaios sobre o Holocausto. Corrijo: o ensaionão era sobre o Holocausto propriamentedito. Antes sobre a forma como essecrimeinomináveltinha sido canibalizado pela cultura pop e regurgitado em filmes oupeças de teatro.
A autora do artigo, a sempre excelente Cynthia Ozick, tomava o "Diário de Anne Frank" como referência. E perguntava: será possível transformar essetestemunho singular em filme de Hollywood oupeça da Broadway?
A resposta de Ozick era negativa: o horror do Holocausto é tão absolutamente radical que exercícios de ficção, mesmo que baseadosemtestemunhosreais, sãosempreatos de traição. Pior: são insultos à memória das vítimas e à experiência traumática dos sobreviventes.
Na altura, vacileicom o ensaio de Cynthia Ozick: os testemunhosreais de Anne Frank ou Primo Levi são importantes para entender o Holocausto. Mas serão as únicas fontes legítimas para o avaliar? A cultura pop nãoterátambémum papel importante nadivulgação histórica do genocídio?
Essasminhasperguntas generosas foram formuladas antes de ter assistido a aberrações cinematográficas como "A Vida é Bela" ou "O Menino do Pijama Listrado".
Hoje, tendo a concordar com a Ozick: as lágrimas de um actor que finge para as câmeras os horrores vividos emAuschwitzouTreblinkasão apenas isso: umfingimento. E "fingir" não é verbo que se aplique aoassunto. Nem fingir, nem banalizar. Nem falsificar.
Por isso pasmo comum concurso recente, montado nacidadeisraelense de Haifa, para eleger a "Miss Sobrevivente do Holocausto".
Segundo a imprensaeuropeia, o concurso contoucom 300 candidatas, dispostas a surgir em palco para contar os seus horrores passadosem apenas 2 minutos (a experiência nos campos, as tentativas de fuga, a morte dos familiares etc.).
Depois de apertadíssimaselecção, sobraram 14 finalistas, comidades entre os 74 e os 90 anos. A vencedora, HavaHeshkovitz, 79, foieleita miss. Não apenas por ter sido considerada a maisbela de todas (palavra de honra). Mas porque o seu historial comoveu o júri e a assistência: HavaHeshkovitznasceunaRoménia, sobreviveu a um campo de concentraçãona ex-União Soviética e refez a sua vida em Israel.
Na foto da consagração, Hava surge comfaixa, buquê de flores e coroa de miss.
Emteoria, admito que o concurso até poderia ter um propósito meritório: celebrar a vida daqueles que sobreviveram a condições de morte.
Mas também admito que, naprática, a teoria é outra: tal como Cynthia Ozick procura mostrar no seuensaio, o problema da cultura popular, emqualquer das suasmanifestações, está na forma insidiosa como vulgariza o que nãodeveria ser vulgarizado.
O sentimentalismo ordinário de certas obras teatraisou cinematográficas; ou a transformação do sofrimento humano em puros espetáculos de circo para consumo das massas - tudoissoadquiresempre contornos grotescos quando o assunto é o Holocausto.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o filósofo Theodor Adorno terá escrito que não era maispossívelescreverpoesiadepois de Auschwitz. A frase está quasecerta. Naverdade, o que não é possível é transformar Auschwitzempoesia.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/1113649-misses-do-holocausto.shtml
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