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Umcéu de um azul tão puro, o revoar dos pássaros e um leve soprar das pétalas amarelas. Um ambiente bucólico, que encobre umpassadomais do que sombrio. É difícil pensar que essecenárionão faz parte da produção de um filme, mas sim, é um dos mais emblemáticos símbolos do Holocausto. Nos campos de Auschwitz-Birkenau, esse último conhecido, também, como Auschwitz II, mais de ummilhão e cem mil pessoasmorreram, fisicamente. Sim, porquêsuas almas jáestavammortas antes de seuscorposchegaremlá.
Issopôde ser mais do que constatado naviagem que fiz junto ao grupo de jornalistas da América Latina, convidados pelo Congresso Judaico Latino-Americano –CJL, com o apoio fundamental do Fundo Comunitário do Estado de São Paulo e da FundaçãoSafra, a mergulharnessepassadotãorecente, cuja feridanão pode e, tampoucodeve ser fechada pela simples razão de que, atosousituações como essa, devem servir de exemplo à toda humanidade para que nãopermitamrepeti-las ou que ousemnegá-las.
Os jornalistastrabalhavamincessantemente, buscando o melhorângulo, saber maisdetalhes, mas, sobretudo, procuravam entender o que e porquêtudoaconteceu. Para mim, particularmente, mais chocante que ver os campos, foi tentar compreender como o mundo deixouisso acontecer!Qual a razão de toda essamaldade? Conquistar terras? Demonstrar poder?
A máquina da morte que se instaurou, talveztenha sido mais eficaz, que os pogroms, a inquisição, porque não era umamorte simples e rápida!Ela era precedida pela morte espiritual. Quando vi o gueto de Cracóvia, me ocorreu a pergunta, porque este muro é tãotrabalhado? Nosso monitor me respondeucomumapergunta: "O que ele te lembra, Silvia?". Na hora, retruquei: "Umcemitério". Não preciso me delongar...
Dias antes, outro choque, ao adentrar no cemitério de Varsóvia, localizado no final do gueto da cidade, e que é a última morada de grandes personalidades, como I.L Peretz, Lázaro Ludoviko, o que parece umnonsense, estar sepultado nesseespaço, alguém que pretendia criar umalíngua universal falada e compreendida por todos, o Esperanto.
Hámais de 150 mil lápides inscritas nos mais diversos idiomas (polonês, alemão, ídish, russo), ele foi fundado por judeus ricos do subúrbio de Praga. E está cheio de histórias, como a de Czerniakow, responsável pelo Judenrat, e que se suicidou, mas está emmeio a outros túmulos por ter se recusado a entregar uma enorme lista de seus compatriotas ou a do historiador Meir Balaban, procurado pelos nazistas para identificar quemeram de fatos os judeus do local. De volta ao fato, percorria o local e observavaum grupo de alunos poloneses acompanhados por suaprofessora relatando o que tudosignificava, e de repente, fui chamada a atenção. Estavaemmeio a uma das muitasvalascomuns, que pensava avistar adiante, quandoolhei ao redor, me deiconta que, naverdade, estavaemum enorme círculo, e abaixo dele, muitos dos que pereceramnamiséria do gueto. Fui alertada: "Hámais de 35 mil pessoas enterradas, semnomes, porque nãodava tempo para cumprir os rituaispós-morte".
EmVarsóvia, senti-me especialmente mal emmaistrêsoutros momentos, alémdesse. Aochegar, nós, os brasileiros, fomos desbravar umpouco a cidade antes do cair da noite. No caminho, vejo no chão, inscrito: "Muralha do Gueto 1941-1943". Pensocomigo: "Nacalçada, e as pessoas tranquilamente passam por cima da história?!".
Segundo episódio: Vejo um teatro ídish, penso que bomestãorevivendonossa cultura, assim como uma sinagoga, tudobem próximo aoentão gueto. Sim, mas as peçassãofeitas por poloneses, e os que oramsãooutrosjudeus, afinal dos 450 mil judeus que se atolavam nos 75 quarteirões ocupados pelo gueto, muitos se nãopereceramnele, tiveramum final, ao que se pode julgar, melhor? Umamortemais rápida?! Entreiemum dos prédios... Procurei me colocar (issoinvariavelmente), no lugar daquelaspessoas, repartindoum minúsculo espaço, derramada no meio-fio.
O terceiroepisódio, e que me causa arrepios, a praça de deportação, ondeficavam horas, dias, semanas esperando seu destino final, encostado a ele, funcionavaum hospital, em que um médico e umaenfermeirapiedosaderamcianuretoaosseus pacientes para evitar que lhesroubassem a alma, já que o corpoestava no limite. A praçapossuium banco maisbaixo, simbolizando o período de luto observado pelos judeus. Hoje, em frente a Auschwitzouaobairro judaico de Kazimiersz, ambos emCracóvia, háum turismo alegre e lucrativo, porém, outro, macabro. Nesse último, encontramos emumafeirinha de artesanato, umsenhorvendendoumaestrelacom os contornos realçados por borracha, como se fossemoriginais, e dessem tempo de fazê-los
O museu de OskarSchindler nos posiciona bem no tempo e espaço. Vida e morte se encontramemCracóvia, se por um lado temosAuschwitz, Museu de Schindler, gueto; háKazimiersz, que recria o tempo em que a comunidadegozava de certoprestígio, dado pelo rei Casimiro. Mas, há que se ressaltar que após ver tudoisso, tentar refletir acerca dessaexperiência, aindamuitorecente, ainda acredito que a essência do homem é boa. Hápessoas como o 'Justo entre as Nações' TadeusPankiewicz, umfarmacêutico, cuja vida nãoganhou as telas de Hollywood, mas que seuestabelecimentoservia de passagem para medicamentos e outrosgêneros a fim de garantir a vida dos que estavam no gueto, e que abrigavaumfuncionário que falsificava documentos de trabalho.
O que aconteceunesse período?Por que tantas mortes? E, pior, porque tanto requinte nessaexecução? Nãosei.... Volteicommaisperguntas, que respostas. Mas, comuma certeza, essa é umaexperiênciaobrigatória para se tornar umapessoamelhor, para se alegrar com cada pôr-do-sol e alvorada, sorrirao observar o bater de asas de umaborboleta, ousimplesmente, por sentir seuscabelosaovento.
Silvia Perlov é assessora de imprensa, jornalista e bacharelem Letras Orientais
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