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Princesas também soltam pum, e daí? Leia entrevista com autor do livro

IlanBrenman, que acabou de ganharprêmio da FNLIJ com o livro No universo literário criado por IlanBrenmancriança faz birra, é egoísta e solta pum. Aliás, "Até as Princesas Soltam Pum" (ed. Brinque-Book) virouseubest-seller e está sendo vendido até naCoreia do Sul.

Combatente do politicamentecorretona literatura infantil, conta que ensinarbons modos àscriançasnão é papel da literatura.

"É dos pais e dos professores", diz o autor de "O Alvo" (ed. Ática), que acaba de ganhar o prêmio de melhorlivro do ano pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).

O escritor estudou o assunto no doutoradoemeducação, naUniversidade de São Paulo (USP). A tese vai ser publicada emlivro pela editora Aletria, previsto para este semestre.

Leia a seguir o que ele fala sobre o tema.

FOLHINHA - O que é o politicamentecorreto nos dias de hoje?

ILAN BRENMAN - É umaideologia que pressupõe que devamos ser tutelados por outros, que unssãomaiscorretos do que os outros - maluquice, não? Os praticantes do politicamentecorretoacreditam que o ambiente é determinante no comportamento infantil. Ambientes negativos corrompem a alma, portanto, somentelocaislivres de maldades e afins é que favoreceriam o desenvolvimento e as potencialidadeinfantis.

E o ambiente em que a criança está inserida?

É evidente que o ambiente influencia a nossa vida, mas esqueceram que não somos tábulas rasas nem seres bondosos por natureza. Somos seres complexos, a infância é complexa. Não podemos simplesmente negar o que somos e como agimos.

Criançassãoafetuosas, raivosas, companheiras, egoístas, solidárias, competitivas, invejosas, amigas, tristonhas, felizes, ansiosas, pacifistas, guerreiras etc. Parece que se nãofalarmos a respeitodessas dualidades, paradoxos, humanidades...elasvão desaparecer da vida da criança.

Por queacreditam que é preciso tirar monstros e conflitos do universo infantil?

Os ideólogos do politicamentecorretoconvencerammuitospais e professores que, semviolência, conflitos, ansiedades etc. nashistórias, a criança será mais feliz. O interessante é que essesmesmospais e professores, quandoeramcrianças, amavamhistórias de terror, assombração, aventuras politicamenteincorretas... E hojequeremafastartais narrativas da vida dos filhos e alunos.

Qual a importânciadessas narrativas na vida das crianças?

Nomear os monstros é fazercom eles percamsuaforça, falar sobre a morte é tentar entendê-la, ouvir e ler sobre a violência faz com que a pratiquemos menos. Tornar o ambiente blindado a essesconteúdosdeixa a infância empobrecida, não permite uma válvula de escape para taissentimentos arraigados nanossa alma.

A criançanecessita de um canal de comunicação entre seu mundo interior e o exterior, o politicamentecorreto é um canal de comunicação de umaviasó. Saramago temum frase (maisou menos assim) que adoro: "As criançasnãocrescemsomenteao sol, crescemtambém à sombra".

Quaissão os temas tabunas obras politicamentecorretas? E o que eles enfatizam? E porque em nada eles ajudam as crianças?

Eles falam de crianças que nãoexistem, poiselassãosempreperfeitas, bondosas, caridosas, amigas, obedientes, asseadas, tolerantes. Venhamos e convenhamos, que criança chata seria essa!

Como falei no início, elastêmessas características, mastambémtêm o lado B, que é o que deixa a infânciamaisinteressante e poética.

Por quepais e professoresaindahojeprocuram tantos livros de autoajuda para crianças?

Quemtem que ajudar a criança no seudia a dia é pai, mãe, professor, adulto responsável. Desconfiem de textos que dizem que darão a solução dos problemas aosseusfilhos, livros que dizem que farão dele umsujeito feliz.

No mundo de ruídos e agitaçõesincessantes, lerumbomlivro é oxigenar o cérebro, é fazercom que nossa mente fabrique imagens e não que consuma-as o tempo inteirojá prontas.

Qual o limite entre o politicamenteincorreto e o respeitoaooutro? Como ficamessasfronteiras nos livros para crianças?

O que chamamos de politicamenteincorretohojefoi o leitenosso de cada dia no passado. São histórias acumuladas e recontadas hámilênios e que formamumraio-x da natureza humana.

Os limites que vocêpergunta está muito ligado àspolêmicas dos humoristas. No campo do humor o bomsenso é fundamental.

Háalgum tempo, Monteiro Lobato e Emíliaforam censurados por conta dos termos usados no trato comTiaNastácia. Como vocêvê a questão?

Minhasfilhas nunca falaram a respeito da cor da TiaNastáciaou da crueldade do Pedrinho "matador de onças". Depois da polêmica do Lobato, resolviperguntar para um bocado de crianças o que vinhanacabeça delas quandofalava o nomeTiaNastácia, todas responderam :alegria, comida, medrosa, mãe da Emília etc. Ninguémfalou da cor dela.

Estamos levando oolhar da criança para algo que nãotemimportância para ela, olha o perigodisso! E querendo tirar preconceitos, podemos estar incutindo-os. Doido, não é?

É evidente que o Lobato está inserido numa determinada época, comseus modelos, estereótipos, preconceitos etc., mas todos, repito, todos os autores também o estão. É importante sabermosdisso, mas também importante entender que a obra é muitomaior que o próprio autor.

LEITURA CORRETA

O escritor IlanBrenmandiz que livros de altíssimaqualidadenão se preocupamcom o politicamentecorreto. Abaixo, confiracincoobrasindicadasporele.

1) Qualquerlivro do autor RoaldDahl ("As Bruxas", "Matilda", "Os Pestes"...). Observação: não veja os filmes antes de ler os livros.

2) "Da PequenaTopeira que Queria Saber quemTinhaFeitoCocônaCabeça dela" (Companhia das Letrinhas), de Werner Holzwarth.

3) "AgoraNão, Bernado" (WMF), de David Mckee.

4) "Super-Hiper-Jezebel" (Martins Editora), de Tony Ross - "um dos meus preferidos".

5) "Contos de Enganar a Morte" (ed. Ática), de Ricardo Azevedo.

RAIO-X DO AUTOR

IlanBrenman

Nasceuem Israel em 1973 e mora no Brasil desde 1979; autor de mais de 50 obras, acaba de ser premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantojuvenil

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/1078516-princesas-tambem-soltam-pum-e-dai-leia-entrevista-com-autor-do-livro.shtml


www.olei.org.il

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